Em Trastevere, em Roma, Clementine Keith-Roach e Christopher Page apresentam o Bar Far na Villa Lontana, um gesamtkustwerk (obra de arte total) alucinatório onde escultura, pintura e arquitetura colapsam em ilusões lúdicas.
Entre no Bar Far e seu primeiro instinto é tocar as paredes.

Parecem pedra, pedra antiga, pedra romana, do tipo que sobreviveu a séculos de clima e indiferença.
Partes do corpo emergem da superfície: um braço aqui, um fragmento de torso ali, fundido com tijolos e madeira como se o edifício estivesse se montando a partir de restos humanos.
Aí você chega perto e percebe que é gesso pintado.

Clementine Keith-Roach conseguiu um engano tão convincente que sua revelação parece pessoal, quase constrangedora.
Você acreditava no que viu.

A obra pede que você fique com isso.
Keith-Roach e Christopher Page transformaram o novo espaço Trastevere da Villa Lontana, reformado em colaboração com o Studio Strato, em algo que desafia uma classificação fácil.
É um bar, sim, em funcionamento e servindo bebidas.

Mas também é uma instalação, uma colaboração e uma provocação sobre percepção.
O nome ecoa a própria Villa Lontana (‘Villa Distante’), e a distância que ela evoca não é geográfica, mas metafísica: as múltiplas ilusões que compõem Bar Far apontam para um além ambíguo.

A contribuição de Page ocupa a sala final, onde uma colunata pintada se abre para o que parece ser profundidade infinita.
Mova dois passos para a esquerda e a perspectiva se distorce, as colunas se curvam, a vista se comprime em pigmento plano sobre gesso.

A ilusão não apenas falha, ela falha lindamente, e esse fracasso é o conteúdo.
Ambos os artistas veem no trompe l’oeil não um truque de salão, mas um método de interrogatório.

Pintar algo que parece real é convidar o espectador a descobrir a mentira e, nessa descoberta, a entender algo sobre como eles constroem a realidade a partir das superfícies.
A linhagem é deliberada: Cabaré Voltaire, a Sala da Colônia, o Caffè Greco de de Chirico.
Bares de arte nascidos durante a agitação, lugares onde a bebida era incidental ao encontro.
O bar chega ao seu próprio momento de incerteza e oferece a mesma proposta: um espaço para conversas conduzidas em meio a contradições, onde as paredes não são confiáveis e as profundezas são pintadas.
Um programa de apresentações ao vivo animará o espaço durante toda a exposição, a poetisa Florence Uniacke, a soprano Nyla van Ingen e o músico Lukas De Clerck estão entre os primeiros.

O interior onírico parece exigir isso.
O Bar Far não é um espaço para olhar passivamente.
É um espaço para estar dentro de uma pergunta, bebida na mão, cercado por coisas que não são o que parecem.
Fonte: This is Paper
Tradução I Edição: pauloguidalli.com.br
Imagem: Jasper Fry




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